
Não sei por que te escrevo desta vez. Acho que queria que soubesses que está tudo bem. Que isto é a minha vida sem ti, e está tudo bem. Aprendi a colorir os dias com outras cores que não as dos teus olhos, e a dar-lhes luz sem a do teu sorriso. Aprendi a ver outros sorrisos, a pensar noutros rostos, a sonhar acordada com outros olhares. Há dias em que ainda tropeço, e outros mesmo em que caio numa qualquer recordação nossa das que ainda tenho espalhadas pela vida, mas aprendi a levantar-me e a continuar a andar. Aprendi a rir de piadas que não as tuas, e a guardar momentos que não os nossos. Talvez fosse a altura certa para dizer-te adeus - mas alguma vez haverá uma altura certa para dizer adeus ao amor da nossa vida? Por isso, escrevo-te só para dizer que ainda penso em ti, todos os dias, e, nalgumas noites, ainda fecho os olhos e desejo-te bons sonhos, mesmo sabendo que não é comigo que vais sonhar. Muitas pessoas não percebem, sabias? Eu diria mesmo que ninguém nos percebe. E eu não os culpo. Afinal, quantas pessoas podem dizer que viveram o que nós vivemos? Fomos nós que decorámos pôres-do-sol, que embalámos promessas até adormecermos, que tivemos a certeza de que "para sempre" era só um começo. Fomos nós que estivemos lá sempre que as nossas mãos se davam e o Mundo voltava à sua ordem natural, porque estávamos juntos. E, sem ti, as coisas sempre fugiram um pouco da sua ordem. Bom, agora fogem muito. Agora eu apaixono-me por pessoas erradas, em alturas erradas, sorrio quando só me apetecia chorar e choro quando tenho razões para sorrir. Nunca sei bem o que quero e raramente quero mesmo aquilo que tenho. Agora eu saio, chego tarde, viajo, e nunca tenho ninguém a quem dizer "Já cheguei". Mas está tudo bem, e era só isso que eu queria que soubesses. Isto é a minha vida sem ti. E está tudo bem.